quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Difícil não é impossível.

Os dias que se seguiram a nossa conversa com os médicos depois da retirada do tubo respiratório foram de muita treva. Eu não podia acreditar que meu maior pesadelo desde que o acidente tinha acontecido estava se concretizando. A hipótese do pequeno para sempre numa cama tinha passado pela minha cabeça algumas vezes mas eu tinha afastado antes mesmo que o pensamento se concluísse. Nós tentávamos nos manter firmes na fé, mas as palavras dos médicos ressoavam em nossa cabeça. "Muito difícil". Naquela tarde de sábado, deixamos o pequeno com uma das avós e fomos para casa tomar banho. Foi quando enfim desmoronamos. Nos deitamos no quarto do pequeno e choramos juntos. Por que Deus tinha nos abandonado dessa maneira? Será que Ele não tinha escutado a nenhuma das minhas orações? Eu lembro tão bem, quando o respectivo veio procurar a casa onde iríamos morar, eu tinha me apaixonado por essa e pedi que ele fizesse o possível para consegui-la. Mas já tinha um casal que havia entregado a documentação e estavam quase fechando o contrato. Lembro que quando o respectivo me falou isso eu fiquei muito decepcionada. Em todas as mudanças que fizemos, quando eu gosto muito de uma casa e ela não dá certo, eu tendo a não me satisfazer com mais nenhuma. Mas então, logo depois de desligar o telefone, eu fiz uma pequena prece. Disse a Deus que se Ele tivesse um bom motivo para nos afastar dessa casa, uma tragédia ou algo assim, que eu entenderia e não ficaria frustrada, e que eu aceitaria o novo lar que Ele tinha preparado para nós, seja ele qual fosse. Uns dias depois, conseguimos alugar a casa.
Eu me sentia tão ignorada naquele momento. Sabia que nós nunca tínhamos sido modelos de santidade ou cristãos exemplares. Mas nós tínhamos buscado manter Deus sempre presente em nossas vidas, na nossa família. Nós sempre tivemos plena consciência da bondade Dele para conosco, agradecíamos sempre pelas graças que Ele nos dava, principalmente pela família perfeita que Ele tinha nos permitido formar. O que nós tínhamos feito para merecer isso? Nosso pequeno tão perfeito, a quem a gente amava tanto, o que ele tinha feito para merecer isso? Deus tinha tido duas oportunidades desde o acidente para levar nosso filho embora e recebê-lo em Seus braços como um anjo, por que permitir que ele ficasse aqui e vivesse uma vida tão limitada? Aceitar isso é acreditar que Deus não existe. E acreditar que Deus não existe é negar toda a minha vida, todo o meu ser, confessei ao respectivo. Não, nós não iríamos aceitar isso. Nosso Deus é o Deus do impossível. Ele tinha nos guiado e nos permitido salvar nosso pequeno. Ele não iria nos abandonar agora, tínhamos certeza disso.
No domingo cedo, respectivo ficou na UTI e eu fui à missa com a minha família. Mal consegui ouvir uma palavra dita durante a celebração. O tempo que fiquei lá, passei chorando e questionando Deus por todas as coisas que estavam acontecendo. Por que Ele tinha permitido que isso acontecesse ao pequeno e a nós? Por que Ele não tinha afastado a casa de nós? Por que as grades não tinham sido instaladas no prazo combinado? Que motivo Ele tinha para justificar tamanha cruz na nossa vida? Eu tinha pedido a Ele, que levasse o pequeno, mas não o deixasse assim tão incapacitado. Por que nem isso Ele tinha atendido?
Passei o dia tomada pela dor e pela dúvida. Havia pouco espaço em mim para a fé naquele momento. Respectivo também tentava se reerguer mas, assim como eu, era puxado para baixo pela angústia de cada um dos questionamentos que não parávamos de fazer. Foi então que, naquela noite, eu recebi uma mensagem que mudou completamente a nossa forma de enxergar o que estava acontecendo conosco e com o pequeno. Minha irmã, após receber de uma conhecida, me mandou um link de um site onde havia diversos testemunhos de curas milagrosas. E onde havia uma mensagem que simplesmente respondia todos os questionamentos que havíamos feito naqueles dois dias de trevas. A mensagem falava de um Deus amoroso, não distante como tínhamos o costume de pensar, mas de um Pai muito próximo de nós, que não só conhece a nossa dor mas a sente junto conosco, por sermos seus filhos amados. Um Deus que não só escuta nossas preces mas que anseia em nos atender. Atender a todos os que os buscam, sem predileções. Um Deus que não nos "castiga" com doenças ou situações difíceis, mas que nos ama tanto que enviou o Seu Filho para nos salvar. E o que Ele espera de nós? Gratidão. Fé. Confiança. Depois de receber a mensagem, meu coração ficou leve, tomado de uma paz inexplicável. Nada do que os médicos haviam falado me incomodava mais. Tudo iria acabar bem. Nós havíamos passado o final de semana inteiro questionando Deus, e Ele simplesmente havia respondido todas as nossas dúvidas. Ele está do nosso lado, tínhamos certeza disso.
Durante os dias que se seguiram, o pequeno começou a apresentar uma boa melhora. Ele estava tossindo e se livrando da secreção, escapando assim da tão temida traqueostomia. Sua saúde estava se estabilizando. No final daquela semana, recebemos um presente que jamais imaginaríamos receber. Um dos padres da matriz vinha nos acompanhado fazia um tempo já. Ele nos visitava com frequência no hospital e sempre nos trazia palavras de fé. Na quinta-feira à noite, fomos na missa de solenidade da Imaculada Conceição e, nos avisos finais, ficamos sabendo que a imagem peregrina de Nossa Senhora Aparecida estava chegando em nossa cidade naquele mesmo dia, e que no dia seguinte ela seria recebida e colocada no altar durante a missa. Antes de nos mudarmos, morávamos muito próximo do santuário de Aparecida e íamos com frequência lá. Nós sentíamos muito próximos Dela e vínhamos consagrando nosso pequeno a Ela todo dia desde logo depois do acidente. Sabíamos que Ela estaria cuidando dele por nós. Na sexta pela manhã eu recebi uma mensagem do padre dizendo que gostaria de levar a imagem peregrina para visitar o pequeno na UTI. Eu mal podia acreditar! A visita mais especial que poderíamos esperar! Não bastasse isso, ele nos convidou para entrarmos na Igreja carregando a imagem até o altar. Nós não poderíamos nos sentir mais honrados! Há uma semana atrás nos sentíamos completamente abandonados, e agora parecia que o céu inteiro vinha em nosso socorro.
No dia seguinte, eu acordei cedo e fui para a UTI. Como minha barriga estava cada dia maior e dormir numa poltrona não era nada confortável, eles haviam permitido que eu dormisse toda noite numa enfermaria que ficava próxima à UTI. Naquele dia, quando entrei, vi uma série de enfermeiras passarem sorridentes pelo leito do pequeno. À medida que eu me aproximava, ouvia um som vindo de lá. O pequeno estava emitindo barulhos. Parecia um miadinho, um resmungo baixo de quem estava incomodado com alguma coisa. Meu coração se encheu de alegria! Ele não estava acordado e falando como nós esperávamos há tanto tempo, mas só de poder ouvir novamente a sua voz, era um bálsamo em meio a tanta saudade. Até os médicos que estavam de plantão ficaram surpresos com a manifestação do pequeno. E o resto do dia ele passou agitado, mexendo partes do corpo e murmurando. E nós passamos o dia com o coração em êxtase, acreditando plenamente que nosso pequeno acordaria a qualquer momento. À noite, minha irmã que tinha ido à missa com meu pai, veio me contar emocionada que o padre havia nos mencionado em seu sermão. Tinha falado da visita da imagem peregrina de Nossa Senhora Aparecida a alguns enfermos e em como ele havia ficado tocado com o tamanho da fé que um casal tão jovem havia mostrado nessa visita. Eu não estava acreditando no que eu ouvia. Na noite anterior o padre havia me mandado uma mensagem nos agradecendo pela experiência de fé vivida durante a visita da imagem. Eu li a mensagem atônita. Como pode uma pessoa que entrega a sua vida à fé agradecer a nós por uma vivência de fé?! Nós que há poucos dias questionávamos tudo que acreditávamos, que repetidas vezes havíamos nos perguntado se teríamos fé suficiente para presenciar um milagre de Deus. Como ele havia enxergado tamanha fé na gente se nem nós mesmos enxergávamos?!
Enquanto nós tentávamos manter os olhos erguidos para o alto e o coração em Deus, algumas situações acabavam nos trazendo de volta às circunstâncias que nos cercavam. Desde que o pequeno havia sido internado na UTI, ele era uma das únicas crianças do setor. A demanda em geral era de bebês prematuros, então tínhamos pouco contato com outras crianças do hospital. Mas fazia alguns dias que uma menina da idade do pequeno tinha sido transferida da pediatria para a UTI. Notamos a sua chegada assim que ela colocou os pés no setor: ela chorava cada vez que uma enfermeira se aproximava dela. Aliás, chorar é otimismo. Ela berrava desesperada aos prantos. Numa manhã, enquanto ouvia os berros da menina, eu simplesmente desabei. Desde que o pequeno havia nascido, nós fazíamos de tudo para que ele não chorasse. A missão de mães e pais no início da vida de seus pequenos é tentar decifrar os seus choros para poder então fazê-los parar de chorar. Nenhum pai ou mãe gosta de ver seu filho chorando e torce para que essa fase do choro passe logo. Nunca em toda minha vida eu achei que fosse sentir tanto a falta do som do choro do meu pequeno. E, enquanto a menina chorava desesperada e gritava pela sua mãe, eu me deixava tomar pelas lágrimas e pela dor de não saber se algum dia eu iria novamente ver meu pequeno chorando e chamando por mim...
Quando estávamos prestes a completar 1 mês do acidente, fomos transferidos da UTI para a pediatria. O quadro do pequeno havia se estabilizado. Ele não corria mais nenhum risco e não havia necessidade de mantê-lo sob constante supervisão dos médicos e das enfermeiras. Nós deveríamos estar felizes, mas não era assim que nos sentíamos. Havíamos acreditado de todo coração que ele acordaria a qualquer momento. Seu corpo havia se recuperado bem, ele agora não dependia mais de máquina nenhuma, apenas da sonda para se alimentar. Só faltava abrir os olhos. Mas a cada dia que passava a sentença dos médicos parecia ainda mais definitiva. Nosso milagre parecia tão perto e ao mesmo tempo tão distante. Enquanto nos preparávamos para a transferência de setor e nos despedíamos do lugar que havíamos passado as últimas quatro semanas - exatamente o mesmo tempo que havíamos passado na casa nova antes do acidente -, eu olhava para o meu pequeno e me perguntava se algum dia eu veria o brilho de seus olhos azuis novamente...

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Nota sobre o atual estado de saúde do pequeno: ele voltou a ser alimentado há alguns dias pela gastro e não teve nenhuma rejeição até agora. Deve ir para o quarto em breve e, em seguida, para casa.
Obs.: muitas pessoas me pedem notícias do pequeno. Tenho tentado escrever com mais frequência, mas me dividir entre ficar em casa cuidando da pequena e ir diariamente ao hospital para ver o pequeno tomam praticamente conta do meu dia inteiro...

UPDATE: pequeno já está no quarto! Logo depois que postei, recebi a notícia do respectivo de que eles haviam saído da UTI ;)

16 comentários:

  1. Milagres existem sim, nunca perca a fé. Ontem assisti um filme chamado "milagre no Paraíso" lembrei muito da sua agonia, chorei e pensei: mãe tem força divina. Acredite sempre! Muita luz !!!

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  2. Ore para o Menino Jesus de Praga, ele é milagroso! Já operou um milagre na vida da minha família e tenho certeza que olhará pelo seu pequeno guerreiro. Rezo todos os dias por vocês. Acredito que tudo vai ficar bem!

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  3. Já ouviu falar sobre os números de Grabovoi? https://www.facebook.com/groups/numerosdegrabovoi/

    Muita luz para seu pequeno se recuperar logo!

    ��

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    1. Belka acredito q sim, temos uma pilotagem para o Arthur no nosso grupo Pilotagem Numeros de Grabovoi https://www.facebook.com/groups/1249746935056992/, é uma extensão do Numeros de Grabovoi

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  4. Manu,
    Lendo seus relatos, posso sentir sua dor mas, principalmente, a sua fé!! A forma como vcs aprenderam a ver Deus é a forma mais maravilhosa e pode ter certeza que a vitória de vcs está próxima!! Vou engrossar esse coro de louvor e de preces e pode ter certeza que vcs estarão nas orações diárias da minha família! Vontade de te conhecer e te dar um abraço bem apertado!!
    Continuem com essa fé imensa e logo logo, no tempo de Deus, o pequeno acordará!
    Um beijo grande em todos os 4!

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  5. Orando muito por todos vcs... realmente estou compadecida, perco até noites de sono em pensar no sofrimento de vcs... sintam-se abraçados em nome de Jesus. Que nosso Deus e Pai que nos ama mais que tudo possa consolá-los...

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  6. Que Nossa Senhora Aparecida interceda por vocês junto à Jesus. O grupo de oração Mãe do Bom Conselho, um grupo formado por mães e do qual a minha mãe faz parte, tbm reza muito por vocês! Manu, nunca deixe a sua fé se abalar, através de sua imensa fé de mãe, seu pequeno irá se recuperar! Vocês alcançarão o milagre e darão testemunho da misericórdia de Deus na vida de vocês! E nós todos voltaremos a ver o lindo brilho daqueles olhinhos azuis! "Eu o livrarei, porque a mim se apegou. Eu o protegerei, pois conhece o meu nome. Ele me invocará, e eu responderei. Na angústia estarei com ele. Eu o livrarei e glorificarei. Vou saciá-lo de longos dias e lhe farei ver a minha salvação ". (Salmo 91, 14-16)

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  7. Manu eu tenho uma vontade tão grande de te abraçar, não que eu ache que tu precise do meu abraço mas acredito que eu preciso de um abraço teu !
    Tudo está se encaminhando para a cura total do Arthur, estou ansiosa esperando a segunda-feira para saber como foi a chegada dele ao lar ! Beijosssss

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  8. Eu oro pelo seu filho TODOS os dias da minha vida, e rogo a Deus que vocês vivenciem o milagre da cura. Vou fazer uma promessa pra Nossa Senhora Aparecida curar o pequeno Arthur!

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  9. "Confia no Senhor a tua sorte, espera Nele, e Ele agirá." (Salmo 37:5)
    Sys querida, há muitos mistérios contidos entre o nosso entendimento e a ação de Deus em nossas vidas.
    Há momentos em que nada podemos fazer além de dirigir a Ele nossas orações e súplicas. E na certeza de que difícil não é impossivel, e muito menos para Deus, sigo com vocês em coro: está em Tuas mãos, Senhor! Eu creio, Senhor, que para Ti nada é impossivel.

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  10. Manu, faz bastante tempo que não nos falamos, mas fiquei sabendo da tua história por amigos em comum e não pude deixar de me emocionar com a franqueza e a coragem do teu relato.
    Realmente, às vezes não entendemos os planos de Deus para nós, mas é certo que ele não nos dá cruz que não podemos carregar, e tu e a tua família estão dando um exemplo disso. O testemunho de vocês é maravilhoso e me inspira muito. Tenho certeza de que a fé de vocês será recompensada, e todos os dias rezo pra que isso aconteça o mais rápido possível.
    Vocês estão sempre nas minhas orações.
    Fiquem com Deus!
    Forte abraço,

    Luísa Silva Schmidt

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  11. E seguimos acompanhando essa fé incrivelmente inabalada...

    Mts orações sempre...

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  12. Este comentário foi removido pelo autor.

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  13. Peço todos os dias pelo seu filhinho Peço a Nossa Senhora que leve essa água cheia de sofrimentoa Jesus e que Ele transforme em vinho novo Que realize o milagre da curane que através de vocês muitas oessoas se convertam e creiam que Jesus realiza muitos milagres em nossas vidas

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  14. Penso e peço por vocês todos os dias desde que fiquei sabendo do acidente..... leio todos seus posts e muitas vezes choro, outras fico imensamente feliz, ainda que seja por algo que, para mim, seria um simples detalhe, sem a menor importância.
    Certa vez eu li uma frase que se tornou incrível para mim e eu gostaria de compartilhar com você, ela dizia o seguinte:
    - sempre nos perguntamos "POR QUE COMIGO??" Quando na verdade, deveríamos perguntar "POR QUE NÃO COMIGO??.... "
    Deus, pai perfeito de todos nós, sabe exatamente o peso que suportamos e, jamais, daria algo maior, que não pudéssemos aguentar. Acredite, você é uma mãe leoa maravilhosa, que sempre encontrará forças para continuará lutando bravamente pela sua cria e, com certeza, irá colher os frutos de toda essa dedicação.
    A nós resta apenas continuar de longe orando, rezando enfim, pedindo por vocês mas, acima de tudo, te admirando por tanta força!! Estamos aqui, conte sempre com cada uma de nós!!!

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