terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Raios de luz em meio à escuridão.

UPDATES SOBRE A RIFA (19/07/2017):
Pessoal, felizmente as rifas que estavam sendo vendidas online já terminaram!! Agora só tem disponível rifa para ser comprada pessoalmente. Meus mais sinceros agradecimentos a todos que compraram, compartilharam e ajudaram a divulgar a nossa ação, foi um verdadeiro sucesso!! Estamos preparando ações futuras para ajudar o nosso pequeno, mais informações aqui.


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Desde o dia do acidente, eu e o respectivo estávamos passando o dia inteiro no hospital e eu sempre voltava para casa para dormir à noite. A ideia inicial era de que eu dormiria com o pequeno, mas como no leito da UTI não tinha cama para o acompanhante, apenas poltronas, e eu já estava num estágio avançado da gestação, decidimos que o respectivo ficaria com ele. O que acabou mudando no dia anterior, quando tivemos a segunda conversa com os médicos sobre a tomo. Qualquer momento poderia ser o último e ninguém me faria sair dali. Naquela noite, depois de chorar tudo o que eu conseguia chorar com a minha irmã do lado de fora do hospital, eu dormi terrivelmente mal. Como eu teria forças para ficar ali, hora após hora, esperando o pior acontecer? Eu tinha decidido não dividir o que estava se passando dentro de mim com o respectivo, ele não via o que eu via. Ele estava tão certo da recuperação do pequeno e tão cheio de fé, que achei injusto tirar isso dele me abrindo. Foi uma noite de silêncio, angústia e pesadelos. Mas, quando o dia amanheceu, eu decidi que eu não suportaria aquilo. Não suportaria ficar ali parada esperando. O pequeno ainda estava ali, o pouco que havia dele ainda lutava para viver. Eu tinha que lutar com ele. Eu tinha que ter fé. Fiz então algo que há alguns dias eu vinha querendo fazer, mas tinha vergonha até de mim mesma por sentir essa necessidade. Entrei no google e digitei três palavras: “lesão cerebral milagre”. Eu precisava saber que era possível. Mais do que isso, eu precisava saber que já tinha acontecido com alguém. E tinha. Com várias pessoas. Me vi lendo inúmeros relatos de pessoas que haviam voltado à vida e se recuperado depois de um diagnóstico definitivo. Se era possível, se já tinha acontecido, então havia esperança. Enquanto houvesse vida, haveria esperança. Foi o que eu e o respectivo dissemos um ao outro depois que eu decidi não me entregar à dor novamente. Se o pior acontecesse, nós teríamos uma vida inteira para lidar com isso. Vocês tem que estar cientes e se preparar para o pior, era o que nos diziam. Mas a verdade é que nada poderia de fato nos preparar para uma dor desse tipo. Então, por que perder tempo se preparando para o pior se nós poderíamos aproveitar que o pequeno continuava entre nós para ter fé na sua recuperação?
Nós buscávamos alimentar nossa fé com diversos momentos de oração ao longo do dia. Até mesmo de madrugada. Logo que a família ficou sabendo do acidente com o pequeno, eles se organizaram num plantão 24h de terço para ele. A cada hora, havia alguém rezando. Eu tinha assumido o horário das 4h da madrugada. Estava acostumada a acordar por volta desse horário para atender o pequeno, ele ainda costumava pedir uma mamadeira no meio da maioria das noites. Mas acordar e entregar a mamadeira era uma coisa. Conseguir se manter acordada rezando um terço inteiro, era outra história. Eu pescava várias vezes até conseguir chegar ao fim. Nessa madrugada, em especial, eu não estava durando nem cinco contas acordada. Já era quase cinco da manhã e eu não tinha conseguido terminar. Foi quando meu celular tocou avisando que eu tinha recebido uma mensagem. De um número desconhecido, um dos tantos soldados do nosso exército de orações. Dizia apenas: “estamos rezando juntas”. Era o que bastava. O sono passou na hora e eu fiz cada prece com ainda mais força. Quando voltei a dormir, tive o primeiro sonho com o pequeno desde o dia do acidente. Ele estava no balanço, só de fralda. Um sorriso largo, lindo e iluminado em seu rosto. Dava gargalhadas enquanto eu o balançava. Foi a primeira vez que consegui dormir em paz.
Durante o dia que se seguiu, os médicos voltaram ao leito para avaliar o pequeno. O diagnóstico permanecia. Mas, ao invés de ser deixar abater pelas palavras duras como havia acontecido há dois dias, respectivo se manteve firme. Eu o assisti, boquiaberta, falar de fé para uma plateia cética. Falar que Deus iria reverter aquele quadro. A admiração que seu senti por ele naquele momento é algo que guardarei para sempre em meu coração. Por que eu não conseguia ter a mesma coragem que ele? Por que eu me sentia tão desarmada diante do ceticismo alheio? Foi quando percebi consternada que, apesar da minha fé ser uma parte tão fundamental de mim, ainda assim eu sentia vergonha de assumir isso aos outros. Eu não podia continuar assim. Afinal, de que vale uma fé silenciosa? Fé sem testemunho é de fato fé? Depois, fomos até a capela do hospital rezar. Cada um teve o seu momento a sós com Deus e então decidimos ler juntos um salmo. Escolhemos um ao acaso e nos deparamos com o 31. Cada palavra falava diretamente ao meu coração. Era como se alguém tivesse visto meus mais íntimos pensamentos e sentimentos e os transformado na mais linda oração. “Não seja eu envergonhado, ó Senhor, porque te invoco”. Amém, mil vezes amém! Que eu não sinta vergonha jamais de clamar Teu Santo nome em voz alta, de bradar aos ventos a minha fé e confiança em Ti. Repeti e guardei cada palavra lida no meu coração e prometi a mim mesma reler esse salmo tantas vezes quantas fossem necessárias. Não teria mais vergonha de professar a minha fé, eu estava determinada. Mais uma vez, Pedro me vinha à mente. Pedro e a sua negação. Também ele havia negado, não por vergonha, mas por medo. Ainda assim, nós dois havíamos negado perante um público hostil. E, apesar da sua fraqueza, Pedro havia visto a glória de Deus no Cristo ressuscitado. Meu Deus, eu Lhe suplico, Lhe imploro, que também eu possa ver a Sua glória apesar da minha fraqueza...
Na manhã do dia seguinte, uma sexta-feira, acordei mais cedo do que o comum e fiquei do ladinho do pequeno, conversando. Não demorou muito e as enfermeiras entraram para fazer os procedimentos rotineiros daquele horário, checar os sinais vitais, fralda, etc. Uma das coisas que elas sempre checavam era a pupila dele. Desde que as mesmas haviam parado de reagir, eu tinha me prometido não olhar mais. Me deixava angustiada vê-las tão dilatadas e acabei prometendo a mim mesma que eu só as veria de novo quando ele abrisse os olhos. Saí de perto dele para que elas pudessem fazer o seu trabalho e me mantive virada de costas, rezando. Em seguida elas saíram do quarto conversando sobre os sinais checados. Várias palavras foram ditas, mas apenas uma chegou aos meus ouvidos: miótica. Quando os médicos nos explicaram o quadro do Arthur, nos falaram que as suas pupilas encontravam-se midriáticas e que isso não era bom. Aliás, era um sinal ruim de um quadro grave. Pesquisando sobre o assunto, descobrimos que o que nós queríamos era que elas estivessem mióticas, que esse seria um excelente sinal de melhora e resposta cerebral. Exatamente a palavra que eu tinha ouvido sem querer naquela manhã. Com o coração aos pulos, fiquei de pé do lado da cama, apenas olhando para o pequeno. Ele estava melhorando! Foi então que eu vi seu corpinho se mexer: a cabeça, os ombros e o pé. Como se ele estivesse se ajeitando na cama. Foi muito rápido e sutil, mas eu tinha certeza absoluta do que eu tinha visto. Ele estava mesmo melhorando! Meu coração se enchia cada vez mais de alegria.
Em seguida nós tivemos que sair da UTI, tinham conseguido para mim uma consulta com uma obstetra (desde a mudança eu não tinha conseguido marcar com nenhuma na cidade) e ela estava me esperando ali mesmo no hospital, onde ela costumava fazer plantão. Já sabíamos que ela conhecia a situação do pequeno, tinha sido o motivo principal pelo qual ela tinha concordado em fazer a consulta ali mesmo, mas se tivéssemos alguma dúvida do quanto ela sabia, a certeza viria nos primeiros minutos de conversa. Ela logo começou perguntando como eu estava e dizendo que se eu precisasse ela poderia me receitar algum antidepressivo. Aquilo me pegou de surpresa. Antidepressivo? Por que eu iria querer tomar antidepressivo? A consulta deve ter demorando umas 2 horas. Acabamos conversando muito mais sobre o pequeno do que sobre mim, a barriga ou a pequena. Ela não só sabia sobre o pequeno, como sabia também da melhora dele naquela manhã. As notícias estavam correndo. Então, logo antes de terminar a consulta, ela falou algo que eu jamais esperava ouvir: “Eu não acredito que estou diante de dois pais cujo filho está na UTI. Se isso tudo é fé, então eu quero conhecer essa fé”. Eu fiquei sem palavras. Era por isso então que ela tinha me perguntado sobre os antidepressivos. Aquela nossa postura de acreditar que tudo iria ficar bem tinha se tornado tão natural para nós que não sabíamos mais como seria viver aquela situação esperando pelo pior. E era assim que as pessoas imaginavam que nos encontrariam, esperando pelo pior. Eu já tinha feito isso por algumas horas, não iria me permitir fazer de novo.
Quando estávamos retornando à UTI, uma surpresa: o Arthur tinha sido levado para fazer uma novo tomo. Meu coração parou. Não, de novo não. Mas em seguida eu me dei conta: as pupilas! Eles estavam levando ele para checar como o cérebro estava depois de perceberem um sinal de melhora em seus olhos. O dia estava ficando cada vez melhor! De fato, tínhamos notado que as pessoas do hospital estavam começando a nos olhar e nos tratar de um jeito diferente. Antes, o sentimento de pesar era explícito. Agora, havia um otimismo no ar. Mais tarde, conversando com os médicos, descobrimos que de fato haviam melhoras sutis no quadro clínico do pequeno. Ainda tínhamos que esperar para ter ideia do quanto de fato ele iria melhorar, mas a sombra da morte parecia aos poucos se afastar de nós. Cada vez mais as trevas que haviam nos invadido estavam cedendo para a luz da fé.
Alguns dias antes, logo depois que tínhamos tido aquela conversa dura com os médicos, nós havíamos adotado o hábito de consagrar o pequeno toda manhã à Nossa Senhora. Sempre tive um carinho especial por Ela mas, depois de me tornar mãe, eu passei a recorrer ainda mais a Ela. Pedia sempre que Ela me guiasse e me ajudasse a ser uma mãe melhor para o pequeno. Que eu aprendesse com Ela a ter um coração manso e humilde. Agora, num momento tão difícil, eu sabia que Ela, mais do que ninguém, sabia a dor que eu estava vivendo e que Ela poderia nos aproximar ainda mais de Deus pela Sua intercessão. Naquela manhã de sábado, estávamos fazendo nosso ritual de consagração, quando vimos nosso pequeno reagir mais uma vez. Enquanto respectivo tocava de leve cada parte do seu corpo espalhando água benta sobre ele, ele tremia e se mexia todo. Depois, respectivo foi fazer um cafuné no cabelo dele e na mesma hora ele respondeu mexendo o pezinho. Cada vez mais a gente tinha certeza, ele estava voltando para nós! Mais tarde naquele dia, a enfermeira veio nos dizer que tinha conversado com os médicos e que eles haviam permitido que a gente ficasse com o pequeno no colo por alguns minutos. Eu não podia acreditar! Fazia pouco mais de 10 dias que eu não o pegava em meus braços e a última vez que eu o havia carregado tinha sido a pior de todas... Eu e o respectivo, um de cada vez, nos sentamos numa poltrona ao lado da cama e as enfermeiras acomodaram o pequeno em nossos braços. Não era fácil pegá-lo porque havia todo o equipamento que o mantinha estável, respirador, sonda, etc. Mas sentir seu corpo acompanhado do som da sua respiração e ver o seu rosto corado, aquilo era redenção. Aquela meia hora que pudemos cada um segurar nosso filho em seus braços levava para longe a memória do pior dia das nossas vidas. Tomada de uma emoção inexplicável, deixei as lágrimas tomarem conta de mim e levar embora toda a dor acumulada. Redenção, era só o que eu conseguia pensar. Quando o momento estava terminando, aproximei meu rosto do dele e falei que ele iria voltar para a cama, mas que aquele seria apenas o primeiro de muitos colos. Logo que eu terminei de falar, o pequeno começou a respirar forte e a mexer várias partes do corpo. Meu coração disparou e eu olhei para o respectivo. Ele também estava vendo aquilo. Pequeno parecia relutar em sair do meu colo! Aos poucos, ele foi se acalmando e as enfermeiras então o colocaram de volta na sua cama.
Aquela noite eu não podia estar mais feliz. Os dias anteriores tinham sido repletos de reações e pequenas melhoras do pequeno. Além disso, nós continuávamos a ser inundados com inúmeras mensagens de fé, nos fazendo sentir cada vez mais a presença de Deus junto de nós. Esse pesadelo iria acabar em breve, nós sentíamos isso. Com o coração em paz, antes de dormir, me aproximei do pequeno, falei o quanto eu o amava, que eu estava ali pertinho dele e que qualquer coisa que ele precisasse era só ele me chamar. E então, como uma flecha, uma imagem invadiu minha mente: o pequeno debaixo d’água, lutando contra a falta de ar e tentando desesperadamente pronunciar a palavra que ele prontamente falava quando sentia medo ou precisava de ajuda: mamãe. Ele provavelmente tentou te chamar, muitas e muitas vezes. Mas você não estava lá. E agora vocês estão aqui. Sem que eu tivesse qualquer chance de tentar me defender, vi a culpa voltar a tomar conta de mim numa fração de segundo, levando embora toda aquela paz pela qual meu coração havia lutado tanto nos últimos dias...

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Nota sobre o atual estado de saúde do pequeno: a semana que passou foi intensa e tumultuada. Por isso não consegui postar mais nada até então. Mais uma complicação pós-cirúrgica fez suspender a adaptação da dieta. Mais uma vez perdemos de vista a alta hospitalar. Pequeno já está se recuperando, mais uma vez. E nós, rezando mais uma vez para que essa seja enfim a última. A pequena preguiçosa segue na barriga.

15 comentários:

  1. Fiquei muito feliz em saber das novidades! !! Todo respeito do mundo aos médicos, mas só Deus sabe ... e seu pequeno ja esta dando sinais!!! Logo mais vcs estão em casa... orando muito por vcs!!! Força Arthur...

    Ps: vou tentar descobrir o contato da mamãe do milagre que te contei e te passo !!! Vai ser muito bom pra vc !!! Bjos

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    1. Ahh que bom, muito obrigada!!! Tenho certeza que vai me ajudar sim ;)

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  2. “Pois que se uniu a mim, eu o livrarei; e o protegerei, pois conhece o meu nome. Quando me invocar, eu o atenderei; na tribulação estarei com ele. Hei de livrá-lo e o cobrirei de glória. Será favorecido de longos dias, e mostrar-lhe-ei a minha salvação.” (Salmo 90:14-16)

    Sys, querida! Emanuelle: Deus conosco! Esta é você! Quanto força você demonstra! Força que vem de Deus! A força que vem de Deus nunca se esgota. A cada vitoria ou fragilidade da caminhada, se estivermos com Ele tudo se transforma em graça! Ele nos levantou após o dia mais dificil das nossas vidas até então. A agradeço a Deus por me permitir estar ao teu lado! Confio plenamente no poder do nosso Deus. E creio em cada vitoria que trará o Arthur para nós, serelepe e dono de si! Estarei sempre ao teu lado... Te amo!

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    1. Nunca sei como te agradecer quando leio tuas mensagens. Sempre tão profundas, tão cheias de fé e luz!! Não sei o que seria de mim sem você nessa caminhada...

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  3. Força.... Deus eh maravilhoso.. pequeno grande guerreiro

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Manu, estamos diariamente em pensamento e oração com vocês. Esse pequeno anjo guerreiro ainda vai nos surpreender muito, ele tem a força dos pais e uma corrente de amor e fé gigante em pedindo pela recuperação dele!

    Que Deus abençoe grandemente você e sua família linda!

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    1. Obrigada queridos!! Esses dias que passaram apareceram para nós no facebook várias lembranças das viagens que fizemos nesta mesma época no ano passado.. saudade bateu forte!! Mas tambem a certeza de que logo logo reviveremos tudo isso ;)

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  6. Oi Manu, que Deus te abençoe e livre seu pequeno deste momento! Suas palavras são tão cheias de fé, que a cada linha que leio consigo sentir em meu coração que ele vai melhorar e que vcs vencerão e sairão deste pesadelo! Deus e Nossa Senhora e m sua infinita bondade abençoe sua família!

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    1. Amém, mil vezes amém!! Não vejo a hora desse pesadelo terminar.. ;)

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  7. Querida, você entendeu errado :claro que ele te chamou embaixo da água e VOCÊ OUVIU, SIM! O que você acha que foi o aperto em seu coração? Foi exatamente sua escuta apuradissima que mudou a história toda. ❤

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    1. Não sei nem o que te dizer!! Tua mensagem encheu meus olhos de lágrimas e meu coração de paz.. Muito obrigada!!

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  8. Depois que conheci sua história, tem 3 dias..simplesmente não consigo parar de pensar em vocês. Você é maravilhosa em todos os sentimentos que vive, e tudo vai ficar bem! Muitas orações para o Arthur!

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    1. Muito obrigada querida pelo carinho!! E principalmente, obrigada pelas orações ;)

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